O que é Fantasia Fantástica?

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Nas masmorras mais profundas dos desfiladeiros da perdição, nos bosques imortais protegidos pelas dríades filhas da natureza, nos campos de batalha onde legiões de centauros enfrentam-se destemidamente em busca de sangue e glória, nas terras sombrias dos mortos-vivos ou até mesmo no covil dos lobisomens: por detrás de todos esses lugares subjaz um elemento comum que lhes confere sua unidade – a Fantasia Fantástica. Lá encontramos a sutileza do medo que possibilita o triunfo da coragem, assim como encontramos os desafios de seres que jamais precisaram preocupar-se com a morte – até o instante em que perdem sua imortalidade; a busca por supremacia apresenta-se como uma constante entre as mais distintas e únicas formas de vida mágicas; na mais profunda escuridão, nos vales do limiar da vida, no momento de maior desespero, ainda há esperança para a redenção e para a vitória.

No entanto, o que faz com que as narrativas em que esses elementos são desenvolvidos sejam consideradas Fantasia Fantástica? Há uma infinidade de histórias com personagens mágicas, com encantamentos, com lobisomens, até mesmo com mortos-vivos, embora todas não sejam necessariamente Fantasia Fantástica. Por isso, precisamos formular uma pergunta fundamental: o que permite afirmarmos que uma narrativa pertence a esta forma de linguagem chamada Fantasia Fantástica? O que é, pois, a Fantasia fantástica? Em primeiro lugar, temos de esclarecer de modo expresso e explícito o que é tanto, por um lado, Fantasia quanto, por outro, Fantástico, para que seja possível buscar definir com mais segurança o que é Fantasia Fantástica. Continuar lendo “O que é Fantasia Fantástica?”

Ontologia da Fantasia Fantástica

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

Desde as grandes batalhas contra os exércitos de orcs até as jornadas por terras gélidas e distantes de reinos perdidos, a Fantasia Fantástica conquista o coração de aventureiros destemidos. Talvez o desafio de enfrentar criaturas assustadoras como dragões, ou até mesmo os temíveis mortos-vivos, faz com que as personagens desses mundos distantes tornem-se muito mais próximas de nós, que lutamos diariamente contra ‘dragões’ em nossas vidas. Depois de tantas horas imersos nessas narrativas, muitas vezes passamos a conhecer e compreender as personagens e ‘seus mundos’ melhor do que compreendemos o ‘nosso mundo’.

Diferente da ‘Fantasia Realista’, que pode, em linhas gerais, ser definida como uma forma de linguagem expressa por meio de narrativas em que o real é apresentado de modo alegórico, como num ‘faz de conta’, porém a utilizar como estrutura cosmológica de seu enredo a mesma estrutura em que o próprio autor está inserido, a Fantasia Fantástica, diferentemente, possui como elemento essencial o contato direto ou indireto com lugares cujas cosmologias são fundamentalmente distintas da do autor. Isso significa que, por um lado, a Fantasia Realista expressa sua linguagem por meio de narrativas desenvolvidas em nosso próprio universo físico, em nossa própria galáxia, em nosso próprio planeta, nos diversos continentes e países espalhados ao redor do globo, de modo a operar através do nexo causal característico da nossa natureza física, aquilo que em linguagem comum costumamos chamar de mundo real; ao passo que, por outro lado, a Fantasia Fantástica apresenta cosmologias completamente distintas, em universos e mundos diferentes dos nossos, ou em lugares em nosso mundo cuja estrutura cosmológica fundante, bem como sua entrada, são inacessíveis ao ser humano comum, permeados por elementos mágicos e encantados a operar como base de seus nexos causais, cujo conteúdo é composto fundamentalmente por objetos da imaginação. Na medida em que esta última contrasta com a estrutura ‘realista’ daquela primeira, alguns problemas decorrem de considerarmos ambas formas de linguagem a mesma coisa. Dentre eles, há uma questão em especial que pode nos ajudar a nortear nossa investigação sobre o que é Fantasia Fantástica: será que a Fantasia Fantástica é um escape da realidade? Dito de outro modo: a Fantasia Fantástica nos afasta do real?

Para responder a essa questão rigorosamente, precisaríamos, em primeiro lugar, estar de acordo sobre o que é realidade. Em vez de solucionar nosso problema, colocaríamos outro de proporções muito maiores. Parece mais razoável, em vez disso, apresentar algumas características estruturais da Fantasia Fantástica, mais especificamente analisá-la por uma perspectiva ontológica, para que possamos nos aproximar minimamente da discussão sobre o que é realidade. Assim, na medida do possível, poderemos com um pouco mais de cuidado questionar se a Fantasia Fantástica diz respeito ao real ou se, pelo contrário, ela diz respeito ao que não é real e ao ilusório. Continuar lendo “Ontologia da Fantasia Fantástica”