Rivendell
Rivendell, ou “Valfenda” para nós falantes de Língua Portuguesa: a “Última Casa Amiga”.

Fantasia, linguagem e literatura

A Fantasia, desde as origens do pensamento ocidental, foi posta como objeto da reflexão filosófica. Platão, há mais de 25 séculos atrás, colocou as personagens de seu diálogo Sofista para discutir o problema da fantasia. Na ocasião, as personagens chegaram à conclusão de que fantasia seria uma forma de reprodução artística, isto é, uma atividade de criação por meio da qual a linguagem ‘re-produziria’ as coisas. No entanto, para essas personagens, a fantasia seria “uma forma inferior de reprodução”, assim como a pintura, que estaria preocupada em reproduzir as coisas de modo ilusório: “preocupada em reproduzir os aspectos belos das coisas”, em vez de reproduzir o verdadeiro, ou seja, as coisas tal como elas são.

De Platão, herdamos o nome “Fantasia”: do grego, phantasía [φαντασία], que diz respeito à produção de aparências, de phantasmata. Esse nome nos Diálogos diz respeito a qualquer discurso que produz ilusões, ou, dito de outro modo, que produz enunciados que não se preocupam em representar de modo exato o modelo a partir do qual são produzidas. Em outras palavras, seria uma forma de linguagem pouco verdadeira e, por isso, muito insignificante para falar sobre as coisas.

Deste a Antiguidade, essa forma de linguagem, contudo, não se confunde com as representações sobre o divino: elas dizem respeito ao âmbito do sagrado. Deste modo, as narrativas sobre os deuses, características das mitologia, da poesia épica, dos cultos marginais, assim como as presentes no imaginário popular, não podem ser consideradas fantasia. Isso significa que, ao longo da Antiguidade e do Medievo, quando a arte remete àquilo que costumamos considerar sobrenatural ela está circunscrita à dimensão religiosa.

Acontece que as transformações na finalidade da arte ao longo da modernidade abriram espaço para o surgimento gradual de formas de linguagem artística cujos conteúdos ‘sobrenaturais’ passaram a dissociar-se do religioso, na medida em que gradativamente as belas artes rumaram em direção de sua dessacralização. Nesse momento, a herança tanto do misticismo popular quanto dos cultos germânicos e celtas na Europa proporcionou uma apropriação de símbolos sagrados a serem ressignificados enquanto linguagem artística: a fantasia na forma de narrativas enquanto contos de fadas, como nas histórias de Perrault e dos irmãos Grimm. Esses contos foram reapropriações modernas de narrativas medievais que retratavam a insegurança, o medo e os constantes conflitos que marcaram parte significante do período da passagem da Antiguidade ao Feudalismo. Na forma de ‘contos de fada’, criaturas mágicas passaram a figurar nas narrativas, como animais falantes e criaturas extraordinárias, todos não mais numa dimensão do sagrado, mas completamente associados a uma dimensão fundamentalmente sócio-antropológica: buscavam retratar conflitos entre distintos níveis sociais, expressar características humanas, como seus temores, suas expectativas e seus desejos.

Cada vez mais a conquistar espaço na literatura, a fantasia ao longo da modernidade finalmente se tornou uma expressão artística em meio a outras formas de narrativa ficcionais presentes na escrita ao longo dos séculos XVIII e XIX. Com o romance enquanto estrutura literária a conquistar espaço para a prosa, a fantasia passou a concretizar-se na forma de narrativas de histórias de viajantes, muito comuns num mundo a cada vez mais a descobrir, desbravar e conquistar o Novo Mundo. Nesse momento, o fantástico passou a ser sinônimo do desconhecido a ser incorporado na cultura ocidental.

No século XX, com as narrativas sobre o sobrenatural completamente desvinculadas do sagrado, a fantasia assegurou, por fim, sua posição enquanto gênero literário. As narrativas a utilizar símbolos e imagens mágicas e fantásticas, sem qualquer ligação com ritos e mitos, concretizaram a ‘fantasia’ formulada nos diálogos de Platão: agora uma forma de linguagem que, por lentes turvas que não reproduzem o real tal como ele é, representam e expressam os problemas, as angústias e os anseios do homem: uma linguagem que, sobre a roupagem do mágico, fala sobre o homem no mundo.

 

Fantasia, Alta Fantasia e a História de Fadas

 

Desde o século XX, num cenário em que há múltiplas e plurais formas de linguagem para expressar o fantástico na arte, desde a literatura ao cinema, do video-games às artes plásticas, há alguns gêneros de fantasia que, de algum modo, parecem confundir-se enquanto uma mesma forma de linguagem: ‘Fantasia’ enquanto gênero geral, ‘Alta Fantasia’ e ‘História de Fadas’ enquanto espécies de ‘Fantasia’.

Apesar de Fantasia, ‘Alta Fantasia’ e ‘História de Fadas’ parecerem ser um mesmo gênero formulado por meio de termos diferentes, elas são, na verdade, distintas em sua forma de expressão artística.

Lloyd Alexander em 1971, num artigo intitulado High Fantasy and Heroic Romance, inaugurou a discussão sobre a ‘Alta Fantasia’. Para Alexander, ‘Alta Fantasia’ seria a categoria de fantasia da qual surgiu o ‘romance heróico’, gênero literário com que, de acordo com ele, encaixam-se as histórias de William Morris, C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien. Trata-se do ‘caldeirão’ em que se misturam os elementos mágicos e fantásticos com que os autores inspiram-se para formular suas próprias personagens e suas próprias histórias, com influências da mitologia, de elementos religiosos das narrativas antigas e do imaginário mágico em geral.

Neste gênero, a narrativa, de acordo com Lloyd Alexander, é fundada, no que diz respeito à sua forma, nas sagas islandesas, na poesia épica antiga e no chanson de geste, uma espécie de poesia épica medieval; em seu conteúdo, tem por fundamento a figura do herói, cujas motivações e códigos de conduta levam-no a embarcar numa jornada para realizar grandes feitos e transformar-se completamente.

Em 1939, J. R. R. Tolkien apresentou na University of St. Andrews na Escócia seu artigo entitulado On Fairy-Stories. Neste artigo, Tolkien desenvolveu sua filosofia da fantasia, bem como reflexões sobre ‘mythopoiesis’, ou a habilidade de produzir mitos. Para nós, interessa sua reflexão filosófica sobre Fantasia.

Neste texto, Tolkien primeiramente reflete sobre o fato de a narrativa sobre ‘Fadas’ (em inglês originalmente Fäerie, portanto o ‘Belo Reino’, o ‘Reino Fantástico’) ser um gênero de fantasia que diz respeito ao ‘Fantástico’, isto é, ao local mágico em que personagens interagem, desenvolvem-se e relacionam-se com a magia e com o fantástico. Em meio à busca por demarcar e definir com mais rigor as ‘Histórias de Fadas’, Tolkien estabelece uma análise filológica do termo Fäerie e compara a ‘História de Fadas’ enquanto linguagem com outros gêneros literários aparentados à Fantasia.

 

Fantasia Fantástica, filosofia e linguagem

 

Depois de Tolkien, de Lewis, de Morris, de Lord Dunsany, Eric Eddison, James Branch Cabell, T. H. White, e mais recentemente de G. R. R. Martin, há o surgimento de formas de Fantasia cada vez mais sofisticadas no que diz respeito à sua profundidade ‘Fantástica’, nas palavras de Tolkien, ou ‘Alto Fantásticas’, nas palavras de L. Alexander.

Diferente do momento em que Tolkien e Alexander escreveram, hoje a Fantasia extrapola, e muito, o âmbito da literatura. Temos centenas de universos fantásticos em video-games, filmes, séries, RPGs, até mesmo nas artes plásticas. Evidentemente, isso não significa que a literatura perde seu valor. Pelo contrário: todas essas expressões artísticas dialogam fortemente entre si, uma a apoiar a outra: o cineasta e roteirista serve-se da escrita, o artista inspira-se no escritor; assim como o caminho oposto também é verdadeiro, com os escritores cada vez mais a se fundar em dimensões para além da literatura.

Assim, a ‘Alta Fantasia’ e as ‘Histórias de Fadas’ hoje se encontram num vórtex artístico entre diferentes formas de expressão e formas de arte, entre diferentes mídias e modos de escrita. Faz-se necessário refletir sobre os limites e sobre as determinações da Fantasia, mais precisamente em suas espécies  ‘Alta Fantasia’ e ‘Histórias de Fadas’, para demarcarmos e definirmos com mais precisão essa forma de linguagem tão mágica.

Neste espaço, criamos o conceito ‘Fantasia Fantástica’, uma espécie de Fantasia em simbiose entre ‘Alta Fantasia’ e ‘Histórias de Fadas’, num desenvolvimento dinâmico da Fantasia enquanto linguagem artística, por um lado no âmbito da literatura no século XX e, por outro, na dimensão de narrativas mais abstratas e gerais do que as literárias, presentes nos video-games, na música, no cinema e nas artes plásticas.

Deste modo, ‘Fantasia Fantástica’ consiste em uma forma de linguagem que expressa a fantasia fundada na dimensão do ‘Fantástico’, do fäerie, cujas bases, embora estejam na mitologia e no legado imaginário mágico ocidental, eleva os símbolos e signos nos quais se funda para ressignificá-los como propriamente fantásticos, em universos próprios, com regras próprias e com estruturas igualmente próprias.

Num ambiente como o da ‘Última Casa Amiga’, Rivendell, além de refletirmos sobre a Fantasia Fantástica, celebraremos aqui nesse espaço, com resenhas, artigos e textos, a nossa linguagem própria, para, de algum modo, tornarmos viva essa forma de expressão artística que manifesta e concretiza por meio da linguagem o que temos de mais mágico em nós.